quinta-feira, março 22, 2007

Diálogo de um café da manhã

- Eiiiiiiiiiiiii paiÊÊÊêÊêêê!!!
- Que foi? Fala rápido que eu tou atrasado.
- Dá pro senhor trazer um potinho de paz p/ mim do supermercado??? - cara de choro mode on.
- Potinho de quê?
- Potinho de paz, pai. De p.a.z!!! - cara de choro super mode on
- Só isso?
- É.
- Lembra que "quem quer paz, amor não tem".
- Oooow paiÊ, esqueceu que eu não acredito nesse tal de amor. Esse daí que o senhor tá falando, né?
- Ah, é mesmoooo! - (cara de bobo esquecido mode on)
- Vixiiiiii, já tou meia hora atrasado. Tchau.
- =*
- *=

Um vai pra um lado, outro pra outro. Sorrisos nos rostos e a certeza de que amor e paz ele encontra nela e ela nele.

E isso basta.

terça-feira, março 20, 2007

Nossa geração é engraçada. Engraçada e trágica.
Mesmo sem tempo para fazer as coisas, rever os amigos, visitar a avó, realizar as expectativas do mundo, chegar pontualmente na aula, entrar num curso de alemão ou culinária, estudar pro vestibular, mesmo sem tempo pra nada, passamos horas sentados na frente de uma tela fria de computador.
Devido às distâncias da grande cidade, ao preço da gasolina, às ocupações cotidianas de cada um, deixamos pra nos encontrar com os amigos quando estamos bem longe deles, ao chegar em casa, abrir uma janela virtual e conversamos com eles através de uma tela fria de computador.
Na incapacidade de sermos nós mesmos, de sermos autênticos, de arcar com as consequências do que falamos, pela incapacidade de olhar nos olhos, passamos recados por mensages subliminares em páginas da internet, falamos o que queremos em nossos sites pessoais, xingamos inimigos assinando como três pontinhos, tiramos a roupa e publicamos fotos calientes por uma fria tela de computador.
Porque o mundo nos ensinou a proporção certa que deve ter um rosto perfeito e as cores certas que deve ter um rosto perfeito, photoshopamos os nossos; arrebitamos as imagens de nossos narizes, fazemos clareamento virtual dentário e encobrimos nossas espinhas. Porque não suportamos nossa imagem, essa imagem tão distante do que é o Belo que aparece tanto nas revistas e nos sites por trás de uma fria tela de computador.
Por sentirmos que não fazemos parte de nada, que somos o próprio nada, que somos uma geração de transição entre os porões de tortura da ditadura e o caos que será o mundo sem água de nossos netos, por não pertencermos a nada, formamos grupos e comunidades idiotas, que se ligam por coincidências idiotas e enquadramentos de personalidade e comportamento, e nossa rede de amigos tem zilhões de pessoas que se amam por trás de uma fria tela de computador.
Com uma puta dor me pergunto:
E se der bug no mundo?

sexta-feira, março 16, 2007

"Vai passar,tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois,quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada¨impulso vital". Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar,para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim "como estou contente outra vez"..."

(Caio Fernando de Abreu)

domingo, março 11, 2007

É preciso escolher presentemente.

Esta é uma regra básica dos manuais de sobrevivência na selva de pedra dos nowadays, e já não é novidade pruma geração nascida entre as torres de livros de auto-ajuda mais vendidos, traduzidos para todas as línguas do Ocidente e do Oriente ocidentalizado. Eis uma idéia que colou: aproveite o dia. Olhamos para ela sempre simpatizados, e quando ouvimos de outra pessoa que a pronuncie, sendo ela intelectual respeitável ou simplesmente uma pessoa entre o segundo e o terceiro uísque, acenamos afirmativamente com a cabeça, com a gravidade de quem concorda muito. Terceirizamos a idéia, damo-lhes como conselho e lema de vida, vendemo-lhes como resolução terapêutica. Aos jovens e velhos é com o mesmo caráter de especialidade que aconselhamos, como se fosse uma idéia feita praquela geração específica. Meninas, aproveitem enquanto são crianças. Moças, aproveitem enquanto são jovens. Lobas, aproveitem que já são lobas. Velhas, aproveitem enquanto há saúde.

Uma vez, um amigo, torcido que é o nariz pros velhos clichês importados do nosso impregnado discurso pseudo-psicológico, disse-me que preferia pensar em viver cada dia como se fosse o primeiro. Gosto da idéia. E assimilando-lhe agora como prática, que idéias meramente idéias não enchem sopa e nem fazem ninguém feliz, passo a pegar nela.
Tragamos o velho e bom discurso do aconselhamento pra vida e pras relações e pras pequeniníssimas decisões que nos esperam à mesa de um bar, na locadora de filmes, no sexo, na cor do esmalte. Deixemos de lado a beleza da contemplação do latim do Carpe Diem e passemos à sua utilidade prática. É parar de ler o manual de instrução pra brincar com o brinquedo novo. É parar de teorizar a vida no divã e ir vivê-la, no presente, no presente, com laço de fita. É parar de ler tais divagações ideais, que por coincidência findam-se nesta linha, e fazer qualquer coisa pela qual se sorria