Nossa geração é engraçada. Engraçada e trágica.
Mesmo sem tempo para fazer as coisas, rever os amigos, visitar a avó, realizar as expectativas do mundo, chegar pontualmente na aula, entrar num curso de alemão ou culinária, estudar pro vestibular, mesmo sem tempo pra nada, passamos horas sentados na frente de uma tela fria de computador.
Devido às distâncias da grande cidade, ao preço da gasolina, às ocupações cotidianas de cada um, deixamos pra nos encontrar com os amigos quando estamos bem longe deles, ao chegar em casa, abrir uma janela virtual e conversamos com eles através de uma tela fria de computador.
Na incapacidade de sermos nós mesmos, de sermos autênticos, de arcar com as consequências do que falamos, pela incapacidade de olhar nos olhos, passamos recados por mensages subliminares em páginas da internet, falamos o que queremos em nossos sites pessoais, xingamos inimigos assinando como três pontinhos, tiramos a roupa e publicamos fotos calientes por uma fria tela de computador.
Porque o mundo nos ensinou a proporção certa que deve ter um rosto perfeito e as cores certas que deve ter um rosto perfeito, photoshopamos os nossos; arrebitamos as imagens de nossos narizes, fazemos clareamento virtual dentário e encobrimos nossas espinhas. Porque não suportamos nossa imagem, essa imagem tão distante do que é o Belo que aparece tanto nas revistas e nos sites por trás de uma fria tela de computador.
Por sentirmos que não fazemos parte de nada, que somos o próprio nada, que somos uma geração de transição entre os porões de tortura da ditadura e o caos que será o mundo sem água de nossos netos, por não pertencermos a nada, formamos grupos e comunidades idiotas, que se ligam por coincidências idiotas e enquadramentos de personalidade e comportamento, e nossa rede de amigos tem zilhões de pessoas que se amam por trás de uma fria tela de computador.
Com uma puta dor me pergunto:
E se der bug no mundo?

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