segunda-feira, junho 15, 2009

É sazonal a inspiração quando estamos afeitos a um ser humano. Isto possa me redimir do silêncio, e de todo e qualquer meu dizer incompatível, ou súbito demais, ou por demais demorado. Um ser humano que nos encanta é motivo suficiente para que faltemos e sobremos, respectivamente para os outros e para este.

É também devido a este motivo que chega a triste hora de convencermo-nos de que qualquer mérito que se me carimbe não é exclusivamente meu. Meu muso inspirador carregue consigo então hoje e para frente certos elogios que me distribuem vez em quando, sejam doces, retóricos, literários e até, que absurdo, pessoais. Os olhos dum ser humano, por exemplo, segundo seu grau de beleza, profundidade e demoramento, são capazes de promover em outra palavras malucas de lindas; o simples dorso dum ser, causar inflamadas alegorias poéticas; ainda um terceiro carregue uma voz de trovão e lá estaremos a tentar expressar, capengamente, pros leitores, o estremecimento que nos causa chegando este homem ao nosso ouvido. Danamos, ou dano, a listar orgasmos, morangos, metáforas e exemplos e frases imagéticas que sugerem à nossa mente pensar num passado doce, para que imediatamente se sinta que são também nossas as palavras dalgum autor.

E como não há nem grandes nem pequenos mérito ou culpa em se estar encantada, perdoe-se-me minha ausência, e mais justa seja tida qualquer lindeza que me saia - que seja lindeza minha e também de quem me cause. É que um ser humano que nos encanta é motivo suficiente para que faltemos e sobremos, respectivamente para os outros e para este.

sábado, abril 25, 2009

Eu estou pensando em você agora. Isso acontece comigo algumas vezes, sabe, quando eu tô dirigindo, quando me ocorre de estar em um espacinho vazio de tempo, não sei direito por que, como é que essa cabeça funciona e por que funciona tão sozinha, mas eu penso em você. 
Sofro da síndrome do pirata, aquela síndrome cujas vítimas vivem correndo atrás de tesouros, do "x" vermelho que muda a nossa vida. Mas eu não estava procurando esse x em você, e nem acho que ele está aí, piscando pra mim, e eu tenho de ir buscá-lo. Só penso que talvez eu possa estar apaixonada, pode ser por você, e eu mesma desenhei aí esse x. Parece tudo que pode estar parecendo na sua cabeça agora, mas o que é pra mim é que eu tô querendo te abraçar e ficar perto como se você quisesse muito a mesma coisa. Sempre treino para tentar abraçar desse jeito, mas acho que sempre faço meio capenga, porque eu tenho medo que 
saia exatamente como eu planejei e de repente não funcione. Eu não sei exatamente o que você pode me oferecer, mas eu tenho querido tanto.
Me entendes?

sexta-feira, abril 03, 2009

Há um mundo lá fora. Não é o melhor mundo. Não é o mundo que nós gostariamos de ver, nem é tão mágico, nem é tão sujo. É basicamente um mundo para se dar adjetivos, não virá adjetivado e as pedras no chão doem nos pés. Mas é um mundo real. E mesmo que o mundo real não ensine nada nem possua trilha sonora, é refrescante. Porque nossas fantasias, por mais belas que sejam, criam mofo com o tempo.

[Se eu for falar de tensões, hoje não vou terminar....]

domingo, março 08, 2009

As mulheres não existem.
Cheguei a essa curiosa constatação depois de alguns anos sendo uma delas. São feitas de papel, sonho, lágrimas, ousadia, sensualidades, cura, saudade, mistérios, venenos, cosmos e dragões internos. São feitas de todas estas coisas abstratas que, pensando bem, não existem.
E elas têm celulites, mais rugas, estrias a mais, e estatura a menos. Menos músculos aparentes, menos neurônios, menos tempo, e não são menos mágicas. Mais lindas, muito mais lindas, talvez por isso. Porque têm mais celulites mas são elas quem usam biquíni na praia, corajosas, cadenciadas e tão onças, cada uma. Menos estatura, menores músculos, mas são elas que tiram os filhos do carro e levam pelo elevador, e colocam na cama. Quando é o pai, a gente percebe um colo mais truncado, pode reparar.
Menos neurônios, sim, cientificamente comprovado. Mas muito mais eficientes, porque, apesar de menos numerosos, dão muito mais resultado. Menos tempo, ainda, e muito mais: porque se subdividem em mãe, filha, irmã, amiga, vizinha salvadora da pátria que empresta um quilo de farinha que acabou, enfermeira, mãe, mãe de novo, provedora, fera, colo, patroa, perua, e todas as fantásticas mil mulheres que existem dentro de cada uma.
Eu tenho bem claro em mim que as mulheres não existem. A sua essência é por demais mágica pra ser verdadeira, palpável, coisa. Elas não existem, são obras de si mesmas, lapidadas dia-a-dia pela força interna e inesgotável de cada uma delas. Que nem são; como os sonhos muito bons dos quais acordamos, como os doces tão bons que nunca provaremos, como as melodias tão belas que nunca ninguém inventou. O seu pecado original nem é a maçã, mas elas mesmas, que já são a maior maravilha e subversão de Deus.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Escrito Pós-FSM

Trata-se de um sacrifício. Sacro-ofício de morte e renascimento. E é todo dia. Renovação necessária para que outra metade da vida seja a mim revelada com toda a liberdade que dá de presente e toda a lufada de amor que se torna então possível: amor livre de apegos, que cuida em vez de cobrar; que dá pelo prazer de dar; recebe pelo merecimento em receber.

É um entendimento mais real das coisas. Que todos estamos no mesmo barco, não adianta ninguém querer pegar uma fatia maior do bolo pra si: todos vivemos e temos a possibilidade de tirar delícias ou tormentos disso. Pra todo mundo a vida é difícil, todo mundo quer comer, beber e amar – obviamente cada um de onde se encontra, mas a verdade é que há uma igualdade por trás desse amontoado de singularidades – uma igualdade tão orgânica e tão possível na diferença, uma igualdade em valor e possibilidade que não sei explicar mas que espero que entendam, posso apenas sentir e expressar nos hiatos dessas palavras.

Sou eu que me sacrifico, arranco o coração do peito para oferecê-lo aos deuses, ainda pulsante e com medo, mas não olho pra trás. Só assim poderei ter um novo coração, renascido das cinzas da fênix que me tornei. E que eu não assuste com essas palavras fincadas no chão parecidas com bandeira que diz muito claramente de que país é o território: os que vivem da terra jamais precisaram de bandeiras. A minha intensidade agora e a força nessas palavras é devido à sua radicalidade e não a nenhum drama. E é bem simples, pois não faz rodeios, mas é também detalhado, porque a vida é detalhada. É justamente o drama que está agonizando em leito de morte e a força das pernas – antes escondida – se revela então, sem nenhuma pseudo-dor que finja muito eficientemente que elas não conseguem mais andar.

É sem nenhuma dó de si, levar um tapa na cara mesmo e a necessidade de você virar o rosto do outro lado pra levar de novo sem reclamar. É sacudir o ego pelos ombros e dizer: se toca, meu irmão! É ser humilde. É o cérebro em alta performance, fazendo novos caminhos de sinapses. E é estranho de dizer, não me entendam errado, mas que libertador se torna então abrir mão de mim. Abrir mão – poder e querer abrir mão e deixar voar alguns desejos e infantilidades, como passarinhos que já podem ir: evaporam. É abrir mão daquela dor escolhida – a dor que já tinha ficado até quentinha e gostosa num canto qualquer de vitimização. E ainda assim – e isso também é todo dia – pode ser que se chore pela dor real que começa finalmente a se curar e que seja preciso um colo e um cuidado que às vezes só você pode se dar.

É estar só e sem desculpas, como disse alguém que não me lembro quem e que me contaram. E só assim então poder estar bem junto na realidade do que isso quer dizer. E o que é belo disso é entender assim que vivemos em horizontalidade. Estamos todos no mesmo patamar.

Não quero dizer com isso de uma igualdade que desconsidere cada peculiaridade da vida de cada um, inclusive com seus melhores e piores (des)entendimentos sobre a vida e a morte. Não é para bater os seres num liquidificador e no estilo Nações Unidas ter um rosto de cada etnia na propaganda pra dizer que somos todos iguais e pronto – se fosse isso seria até incoerente. Não. É uma coisa calma e forte e tão consciente: é entender que eu valho o mesmo tanto que você. Eu valho o mesmo tanto que você! É você valer o mesmo tanto que eu dentro de mim e nós dois valermos muito. É amar ao próximo como a si mesmo – e para os que não gostam do cristianismo que se tornou besta pode ser até irônico falar assim, mas se atenham à essencialidade das palavras e quem sabe podemos enfim dar um real sentido ao que se fala – até de maneira banal – todos os domingos nas missas, sem que ninguém esteja disposto a carregar e se livrar de sua própria cruz.

sábado, janeiro 17, 2009

Amor, quase todos os cariocas, exceto os taxistas, são tão bonitos quanto você. Eles cuidam do corpo, sabe? Voltei achando os não-cariocas tão largados...
Os cariocas cedo levantam, correm no calçadão e exibem seus corpos, hidratam-se com água de coco e refrescam-se no mar gelado de lá. Eles são tão livres, tão vaidosos, tão estúpidos, tão belos, tão masculinos, tão afetivos.

Os cariocas são estilosos, amor... Cada um deles que passava eu imaginava seu rosto com aquele corte de cabelo. Que lindos homens! Quanta bermuda usam, e regatas, sungas e bonés.

Os cariocas são muito sexys, meu amor, alguns nos cantam na rua com tamanha elegância e outros com tamanha vulgaridade que é difícil saber quais são os melhores. Eles são tão políticos, bem-humorados, sorridentes, fanáticos por futebol que encantam.
Não magrelos, tão de andares desajeitados e roupas descoladas, tão sedutores, tão amáveis. Os cariocas são absolutamente gostosos, meu amor...

As cariocas, por outro lado, são desengonçadas e feias... usam chinelinho de dedo de propósito e acham-se tão charmosas... O carioquês na boca delas fica tão agudo que ensurdece, e parecem lagartixas em pé enquanto andam.
Falta-lhes feminilidade, leveza, calma. As cariocas são muito chatas, amor, te juro. Que bruacas! A uma delas quase disse que colocasse aparelho nos dentes, mas pude perceber que seu estúpido namorado lhe amava mesmo assim. Eles estavam brincandos naqueles pedalinhos da Lagoa.

Ai, amor, e que namorado... tão carioca... quase tão lindo como você.

[Trocentos anos depois, cá estou eu. Uma conversa com amig@s sobre irlandeses, franceses, italianos, latinos, latinos-brasileiros, latinos-argentinos, latinos-brasileiro-cariocas e outras nacionalidades/naturalidades mais, foi a inspiração.]

[Aaah, post pro Carlos, não que ele seja carioca, mas ele aperta o músculo do tchauzinho como ninguém!]

segunda-feira, setembro 08, 2008

"Seja doce! Três vezes que é pra dar sorte."

Doce e boba esta sensação de não se merecer alguém, pelo tanto que se admira. Doce e boba essa sensação aflita de precisar crescer muito até o próximo encontro. Doce e boba essa necessidade de respeito e doce e boba essa vontade de invasão. Doce e boba essa menina que eclode e é tão criativa e pura e frágil. Doce e boba essa mulher que sabe e é sincera e leal e ponderada. Doce e boba esta fresta de lua, que a ninguém deve ter inspirado nada hoje, senão a mim. Doce e boba eu, perplexa, perdida, lisonjeada e recusável. Doce e boba eu, que desconhece meu caminho todo trilhado até hoje, face ao inesperado da resposta ou da não-resposta dele. Doce e boba eu reduzindo tudo ao pequeno momento de pousar sobre ele os olhos doces e bobos do doce e bobo amor.
Dociiinho e bobiiinho esse texto, tomara que adoçe e bobeie o salgado e esperto coração.