É sazonal a inspiração quando estamos afeitos a um ser humano. Isto possa me redimir do silêncio, e de todo e qualquer meu dizer incompatível, ou súbito demais, ou por demais demorado. Um ser humano que nos encanta é motivo suficiente para que faltemos e sobremos, respectivamente para os outros e para este.
É também devido a este motivo que chega a triste hora de convencermo-nos de que qualquer mérito que se me carimbe não é exclusivamente meu. Meu muso inspirador carregue consigo então hoje e para frente certos elogios que me distribuem vez em quando, sejam doces, retóricos, literários e até, que absurdo, pessoais. Os olhos dum ser humano, por exemplo, segundo seu grau de beleza, profundidade e demoramento, são capazes de promover em outra palavras malucas de lindas; o simples dorso dum ser, causar inflamadas alegorias poéticas; ainda um terceiro carregue uma voz de trovão e lá estaremos a tentar expressar, capengamente, pros leitores, o estremecimento que nos causa chegando este homem ao nosso ouvido. Danamos, ou dano, a listar orgasmos, morangos, metáforas e exemplos e frases imagéticas que sugerem à nossa mente pensar num passado doce, para que imediatamente se sinta que são também nossas as palavras dalgum autor.
E como não há nem grandes nem pequenos mérito ou culpa em se estar encantada, perdoe-se-me minha ausência, e mais justa seja tida qualquer lindeza que me saia - que seja lindeza minha e também de quem me cause. É que um ser humano que nos encanta é motivo suficiente para que faltemos e sobremos, respectivamente para os outros e para este.
