Escrito Pós-FSM
Trata-se de um sacrifício. Sacro-ofício de morte e renascimento. E é todo dia. Renovação necessária para que outra metade da vida seja a mim revelada com toda a liberdade que dá de presente e toda a lufada de amor que se torna então possível: amor livre de apegos, que cuida em vez de cobrar; que dá pelo prazer de dar; recebe pelo merecimento em receber.
É um entendimento mais real das coisas. Que todos estamos no mesmo barco, não adianta ninguém querer pegar uma fatia maior do bolo pra si: todos vivemos e temos a possibilidade de tirar delícias ou tormentos disso. Pra todo mundo a vida é difícil, todo mundo quer comer, beber e amar – obviamente cada um de onde se encontra, mas a verdade é que há uma igualdade por trás desse amontoado de singularidades – uma igualdade tão orgânica e tão possível na diferença, uma igualdade em valor e possibilidade que não sei explicar mas que espero que entendam, posso apenas sentir e expressar nos hiatos dessas palavras.
Sou eu que me sacrifico, arranco o coração do peito para oferecê-lo aos deuses, ainda pulsante e com medo, mas não olho pra trás. Só assim poderei ter um novo coração, renascido das cinzas da fênix que me tornei. E que eu não assuste com essas palavras fincadas no chão parecidas com bandeira que diz muito claramente de que país é o território: os que vivem da terra jamais precisaram de bandeiras. A minha intensidade agora e a força nessas palavras é devido à sua radicalidade e não a nenhum drama. E é bem simples, pois não faz rodeios, mas é também detalhado, porque a vida é detalhada. É justamente o drama que está agonizando em leito de morte e a força das pernas – antes escondida – se revela então, sem nenhuma pseudo-dor que finja muito eficientemente que elas não conseguem mais andar.
É sem nenhuma dó de si, levar um tapa na cara mesmo e a necessidade de você virar o rosto do outro lado pra levar de novo sem reclamar. É sacudir o ego pelos ombros e dizer: se toca, meu irmão! É ser humilde. É o cérebro em alta performance, fazendo novos caminhos de sinapses. E é estranho de dizer, não me entendam errado, mas que libertador se torna então abrir mão de mim. Abrir mão – poder e querer abrir mão e deixar voar alguns desejos e infantilidades, como passarinhos que já podem ir: evaporam. É abrir mão daquela dor escolhida – a dor que já tinha ficado até quentinha e gostosa num canto qualquer de vitimização. E ainda assim – e isso também é todo dia – pode ser que se chore pela dor real que começa finalmente a se curar e que seja preciso um colo e um cuidado que às vezes só você pode se dar.
É estar só e sem desculpas, como disse alguém que não me lembro quem e que me contaram. E só assim então poder estar bem junto na realidade do que isso quer dizer. E o que é belo disso é entender assim que vivemos em horizontalidade. Estamos todos no mesmo patamar.
Não quero dizer com isso de uma igualdade que desconsidere cada peculiaridade da vida de cada um, inclusive com seus melhores e piores (des)entendimentos sobre a vida e a morte. Não é para bater os seres num liquidificador e no estilo Nações Unidas ter um rosto de cada etnia na propaganda pra dizer que somos todos iguais e pronto – se fosse isso seria até incoerente. Não. É uma coisa calma e forte e tão consciente: é entender que eu valho o mesmo tanto que você. Eu valho o mesmo tanto que você! É você valer o mesmo tanto que eu dentro de mim e nós dois valermos muito. É amar ao próximo como a si mesmo – e para os que não gostam do cristianismo que se tornou besta pode ser até irônico falar assim, mas se atenham à essencialidade das palavras e quem sabe podemos enfim dar um real sentido ao que se fala – até de maneira banal – todos os domingos nas missas, sem que ninguém esteja disposto a carregar e se livrar de sua própria cruz.
